A resiliência das mulheres vítimas de
violência doméstica- Um estudo de famílias acompanhadas na ASC. (Associação
Saúde Criança)
Minha intenção em falar sobre a resiliência de
mulheres que sofreram violência doméstica, particularmente, surgiu das experiências
vivenciadas dentro do meu lar, quando criança.
Lembro
claramente do meu pai agredindo a minha mãe. Em uma dessas agressões, ele
torceu o braço dela até quebrar. Ela fugia, mas sempre voltava por nós, pelos
filhos. A última vez em que ele bateu nela, a pior de todas, ele deu socos por
várias vezes e colocou uma arma na cabeça dela. Foi de madrugada e eu fui a
primeira a acordar, a porta do quarto deles estava aberta, eu vi muito sangue
em suas roupas e quando vi a arma pensei que ele já tinha atirado nela e entrei
em choque. Escutava ela gritando para que eu pedisse socorro, mas não conseguia
me mover, eu tinha 10 anos. Meu irmão (11 anos) acordou e abriu a janela e
começou a gritar por socorro e eu continuei imóvel, só olhando, sem conseguir
agir. Meu pai ficou disparando a arma, a arma estava travada e ele saiu da
cama, passou por mim e eu nem me mexi, ele foi pra cozinha limpar a arma e
colocar mais bala. Nesses segundos, minha mãe pulou uma meia parede e fugiu
pela janela da sala. Quando ele ouviu o barulho na sala, ele correu para
pegá-la, mas ela já tinha se escondido. Então ele começou a espancar o meu
irmão, ele o jogava no chão e chutava. Pois meu pai achava que se minha mãe
ouvisse os gritos de dor do meu irmão, ela voltaria para socorrê-lo.
Hoje em
dia meu irmão fala que ele não aguentava mais apanhar e que se soubesse onde
minha mãe estava escondida, ele teria contado, e minha mãe diz que tinha
certeza que se tivesse voltado o meu pai a teria matado. E todos nós temos
certeza disso.
No começo do meu estágio, ainda quando eu
observava os atendimentos, me deparei com um relato de uma usuária, na
entrevista feita pela Assistente Social, na Instituição Saúde Criança. A
associação Saúde criança atende famílias que vivem abaixo da linha da pobreza, com
crianças doentes. As famílias são reestruturadas através do plano de ação que
compreende cinco áreas: Saúde, geração de renda, moradia, educação e cidadania.
A assistência é dada às crianças oriundas de internação em unidades públicas de
saúde (Hospital da Lagoa e Hospital Maria Amélia Buarque de Holanda) e suas
famílias, visando quebrar o círculo vicioso
miséria-doença-internação-alta-reinternação- morte, e criar condições de
melhoria de saúde e bem-estar, além de promover a auto-sustentação e inclusão
social através de uma visão integral da saúde.
Durante
a avaliação inicial (entrevista) J. relatou o seu histórico familiar no qual
foi identificado várias formas de violência. Quando criança sofreu violência
física por parte da mãe e do padrasto, seu padrasto também tentou estuprá-la,
pois já havia estuprado sua irmã mais velha, na época ela com 10 anos e sua
irmã com 12 anos, seu pai já era falecido. Diante dessa situação, ambas fugiram
de casa e pediram ajuda a guardas do município de Rio das Ostras, local em que
moravam, porém foram estupradas por eles, conseguiram fugir e pedir ajuda em um
restaurante da cidade. O casal dono do restaurante acolheu J. e sua irmã e
levaram as mesmas à delegacia da cidade, chegando ao local os guardas estavam
lá e a mãe de J. foi chamada na delegacia.
J. disse que na época não
entendeu o motivo de sua mãe receber uma quantia da mão do delegado.
J. e a irmã foram levadas para hospital,
porque ela apresentou hemorragia. Depois o ocorrido se espalhou pela cidade e
as duas foram para um abrigo. Passado um ano sua irmã foi transferida para um
abrigo no Rio de Janeiro, pois o abrigo do local só acolhia meninas até 12
anos, desde então perdeu o contato com a irmã. Quando completou 13 anos diante
do juiz J. pôde decidir entre voltar a morar com a mãe e com o padrasto ou ir para
um abrigo no município no Rio de Janeiro. A mesma relatou que ficou com muito
medo de ir para um local longe que não conhecia ninguém e optou por voltar a
morar com sua mãe e seu padrasto. Falou que lembra que foi recepcionada por sua
mãe com uma surra, pois disse que havia dado muita dor de cabeça para ela.
J.
continuou o relato dizendo que conheceu um rapaz da região e logo se casaram,
disse que em pouco tempo engravidou e as coisas mudaram, ele passou a agredi-la
fisicamente e como não tinha apoio de ninguém, pois sofria preconceito por
parte da família do seu marido por já
ter morado em abrigo, sofria calada. Falou que precisou ser acompanhada por
psiquiatra e passou a tomar remédio controlado e que depois disso percebeu que
por duas vezes foi estuprada pelo seu marido enquanto dormia. Falou que as
crianças também sofreram violência física, relatou que uma das vezes um de seus
filhos que na época estava com uma ano de idade foi levado do por seu marido
para a beira da estrada e deixado para ser atropelado. Após esses episódios J.
fez um boletim de ocorrência contra seu marido e se separaram.
Atualmente
o ex-marido J. está proibido judicialmente
de se aproximar dela e de seus filhos.
Minhas indagações, está em querer saber se a minha mãe e essas mulheres
(pois identifiquei na instituição outros casos, de mães que sofreram algum tipo
de violência) passaram pelo processo de resiliência.
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